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quarta-feira, 9 de março de 2011

0013 - Patas de animais em contexto funerário


Deposição de pata de suídeo sob corpo humano na Fossa 11 do Sector I dos Perdigões (Reguengos de Monsaraz)

O problema da segmentação dos corpos coloca-se também relativamente aos animais. À medida que vão aumentando as intervenções em contextos funerários bem preservados (que ocorrem sobretudo em estruturas negativas, tipo fossa ou hipogeu, já que os monumentos megalíticos tendem a apresentar-se em situações de maior revolvimento e degradação) aumenta também o número de evidências de deposições de partes de animais, tradicionalmente entendidas como simples deposições votivas de alimentos. Todavia, a recorrência de determinadas partes do corpo, como uma simples pata, e a ausência sistemática de outras pode sugerir-nos que existe um sentido acrescido, relacionado com o estatuto dessas partes do corpo (tipo “pata de coelho dá sorte” ou outro qualquer).

Nos contextos da Pré-História Recente que têm sido intervencionados nos últimos anos no Sul de Portugal, esta prática do ritual funerário tem sido registada desde o final do Neolítico até à Idade do Bronze, sendo vários os tipos de animais representados: porco, cão, bovídeo, ovicaprinos. Mas faltam-nos ainda um número mais significativo de contextos, bem intervencionados e questionados, para que padrões de comportamento possam começar a emergir. Para já, fica a chamada de atenção para a necessidade de publicar estas particularidades sempre que ocorram, não as deixando “na gaveta”, como algo de pouco relevante para a compreensão do Homem e das suas cosmologias (e sempre à espera de grandes monografias finais, que raramente se escrevem).

(Ver também aqui)

António Carlos Valera

quinta-feira, 3 de março de 2011

0008 - Por uma Arqueologia da fragmentação

A fragmentação é uma estratégia social ao serviço da comunicação e da gestão de relações. No caso concreto dos objectos, esta questão leva-nos a questionar o conceito de “unidade” ou, se quiserem, de “todo”. Se aceitarmos que o sentido faz parte da constituição do objecto social (a Arqueologia trabalha com objectos sociais e não simplesmente com objectos físicos), situações aparentemente paradoxais podem ocorrer:

a)     Uma metade pode, pelo significado que assume, ser de facto o todo (a unidade). É esse, por exemplo,  o princípio da hóstia, que, fragmentada, não deixa de representar o corpo de Cristo. Trata-se do processo psicológico de “participação” em que as essências do todo estão presentes na parte, pelo que a parte representa (ou é) o todo.
b)    Por outro lado, uma unidade (um todo) pode representar (ser) apenas uma parte. É o caso das alianças, que uma é apenas parte e o todo são as duas. A unidade é, aqui, apenas metade.

Ou seja, a ontologia dos objectos é algo que temos que ter em consideração quando estudamos artefactos e contextos pré-históricos. A fragmentação pode ser intencional e traduzir sentidos. É importante despistar a interferência da tafonomia, mas, como dizia há dias, só vemos o que estamos preparados para ver: porque será que ocorrem tantas metades de objectos em contextos Pré-Históricos bem preservados? Porquê precisamente metades? Ou segmentos de corpos (humanos ou de animais)?

E, no entanto, dividir e distribuir, como forma de ligar e, paradoxalmente, unir , é algo que mantemos como estratégia nos complexos sistemas das nossas relações sociais. A partilha une, e nisto a fragmentação joga um papel central. A fragmentação do objecto, do corpo, da comunidade. São níveis de uma prática que me parece central para o entendimento das comunidades pré-históricas.

Em português:
VALERA, António Carlos (2010), "Marfim no recinto calcolítico dos Perdigões (1): "Lúnukas, fragmentação e ontologia dos artefactos", Apontamentos de Arqueologia e Património, 5, Lisboa, NIA-ERA Arqueologia, p. 31-42. (link disponível na pagina de Publicações de Membros)

Em inglês:
CHAPMAN, J. (2000), Fragmentation in Archaeology: people, places and broken objects in the Prehistory of South-Eastern Europe, London, Routledge.
CHAPMAN, J. e GAYDARSKA, G. (2007), Parts and wholes: fragmentation in prehistoric context, Oxbow Books.

António Carlos Valera